Encantos de Ju FadaseContos Ju












Amar





Que pode uma criatura senão,

entre criaturas, amar?

amar e esquecer,

amar e malamar,

amar, desamar, amar?

sempre, e até de olhos vidrados, amar?



Que pode, pergunto, o ser amoroso,

sozinho, em rotação universal, senão

rodar também, e amar?

amar o que o mar traz à praia,

e o que ele sepulta, e o que, na brisa marinha,

é sal, ou precisão de amor, ou simples ânsia?



Amar solenemente as palmas do deserto,

o que é entrega ou adoração expectante,

e amar o inóspito, o áspero,

um vaso sem flor, um chão de ferro,

e o peito inerte, e a rua vista em sonho, e uma ave de rapina.



Este o nosso destino: amor sem conta,

distribuído pelas coisas pérfidas ou nulas,

doação ilimitada a uma completa ingratidão,

e na concha vazia do amor a procura medrosa,

paciente, de mais e mais amor.



Amar a nossa falta mesma de amor, e na secura nossa

amar a água implícita, e o beijo tácito, e a sede infinita.



Carlos Drummond de Andrade







Meu Desejo





Meu desejo? Era ser a luva branca

Que essa tua gentil mãozinha aperta;

A camélia que murcha no teu seio,

O anjo que por te ver do céu deserta...

Meu desejo? Era ser o sapatinho

Que teu mimoso pé no baile encerra...

A esperança que sonhas no futuro,

As saudades que tens aqui na terra...

Meu desejo? Era ser o cortinado

Que não conta os mistérios de teu leito;

Era de teu colar de negra seda

Ser a cruz com que dormes sobre o peito.

Meu desejo? Era ser o teu espelho

Que mais bela te vê quando deslaças

Do baile as roupas de escomilha e flores

E mira-te amoroso as nuas graças!

Meu desejo? Era ser desse teu leito

De cambraia o lençol, o travesseiro

Com que velas o seio, onde repousas,

Solto o cabelo, o rosto feiticeiro...

Meu desejo? Era ser a voz da terra

Que da estrela do céu ouvisse amor!

Ser o amante que sonhas, que desejas

Nas cismas encantadas de langor!



Álvares de Azevedo







AUTOPSICOGRAFIA



O poeta é um fingidor.

Finge tão completamente

Que chega a fingir que é dor

A dor que deveras sente.



E os que lêem o que escreve,

Na dor lida sentem bem,

Não as duas que ele teve,

Mas só a que eles não têm.



E assim nas calhas de roda

Gira, a entreter a razão,

Esse comboio de corda

Que se chama coração.



Fernando Pessoa







É PRECISO NÃO ESQUECER NADA



É preciso não esquecer nada:

nem a torneira aberta nem o fogo aceso,

nem o sorriso para os infelizes

nem a oração de cada instante.



É preciso não esquecer de ver a nova borboleta

nem o céu de sempre.



O que é preciso é esquecer o nosso rosto,

o nosso nome, o som da nossa voz, o ritmo do nosso pulso.



O que é preciso esquecer é o dia carregado de atos,

a idéia de recompensa e de glória.



O que é preciso é ser como se já não fôssemos,

vigiados pelos próprios olhos

severos conosco, pois o resto não nos pertence.



Cecília Meireles







VERDADE



A porta da verdade estava aberta,

mas só deixava passar

meia pessoa de cada vez.



Assim não era possível atingir toda a verdade,

porque a meia pessoa que entrava

só trazia o perfil de meia verdade.

E sua segunda metade

voltava igualmente com meio perfil.

E os meios perfis não coincidiam.



Arrebentaram a porta. Derrubaram a porta.

Chegaram ao lugar luminoso

onde a verdade esplendia seus fogos.

Era dividida em metades

diferentes uma da outra.



Chegou-se a discutir qual a metade mais bela.

Nenhuma das duas era totalmente bela.

E carecia optar. Cada um optou conforme

seu capricho, sua ilusão, sua miopia.



Carlos Drummond de Andrade







OS RETRATOS



Os antigos retratos de parede

Não conseguem ficar longo tempo abstratos.



Às vezes os seus olhos te fixam, obstinados

Porque eles nunca se desumanizam de todo



Jamais te voltes pra trás de repente.

Não, não olhes agora!



O remédio é cantares cantigas loucas e sem fim...

Sem fim e sem sentido...



Dessas que a gente inventava

enganar a solidão dos caminhos sem lua.



Mário Quintana